As mulheres e o islã

O texto a seguir é a primeira parte do capítulo 14 do livro Why I am not a muslim (Por que não sou muçulmano), de Ibn Warraq.

Texto de Ibn Warraq

Richard Burton em seu “Ensaio Terminal” em que defende o Islã contra a crítica ocidental argumentou que “o estatuto jurídico da mulher no al-Islam é excepcionalmente alto” e que “a mulher muçulmana tem muito mais  vantagem sobre a mulher de religião cristã.” Ele também continua a afirmar que o Islã tem opiniões mais positivas sobre o sexo: “os muçulmanos estudam a arte e o mistério de satisfazer fisicamente a mulher”. Sua prova para tal afirmação é a abundância de literatura pornográfica com títulos como “O Livro da cópula carnal e da Iniciação aos modos de coito e sua instrumentação”. Burton devia saber bem que essas obras foram escritas por homens e para homens, embora a importância deste fato pareça lhe escapar. Um dos livros citados por Burton – O Livro da Exposição da Arte no Coito – começa “Alhamdolilá Laud reza ao Senhor, que adornou o peito virginal com seios e que fez das coxas das mulheres bigornas para a lança dos homens”. Em outras palavras, as mulheres foram criadas por Deus para o prazer do homem, ou, como se diz na linguagem moderna, o seu objeto sexual.

De fato, um trabalho muito mais famoso, de Shaykh Nefzawi chamado “O Jardim Perfumado”, que é um tratado do século XVI em que o próprio Burton traduziu a partir do Francês, é muito revelador das atitudes em relação às mulheres islâmicas e o sexo. A sexualidade das mulheres nunca é negada, mas ela é vista como uma fonte de perigo: “Vós sabeis que a religião das mulheres está em suas vaginas?” pergunta o Shaykh. “Elas são insaciáveis tanto quanto permitem suas vulvas, e desde que sua luxúria fique satisfeita. Não importa que seja um palhaço, um negro, um coringa, ou mesmo um homem desprezado. É o satanás quem instiga a lubricidade de sua genitália”. O Shaykh cita Abu Nuwas com aprovação:

As mulheres são demônios e foram nascidas como tal;
Ninguém pode confiar nelas, como todo mundo já sabe;
Se elas adoram um homem, é apenas por capricho;
E aqueles com quem elas são mais cruéis, elas os amam mais;
São seres cheios de traição e trapaças;
O homem que as amar é de fato um homem perdido;

Aquele que não crer em mim pode provar minha palavra;
Ao deixar o amor da mulher se apossar dele por anos;
Se em espírito generoso deu algo a elas;
Se deu tudo por anos e anos;
Elas vão dizer depois: “Juro por Deus! Meus olhos
Nunca viram algo que ele me deu!”
Depois de ter empobrecido por causa delas;
O grito delas dia após dia será para sempre “Dê”:
“Dê, homem, levanta-se, compra e empresta”;
Se elas não podem lucrar convosco, vão se voltar contra vós.
Elas vão dizer mentiras e vos caluniar;
Ela não recuarão para usar um escravo na ausência do mestre;
E uma vez que suas paixões são despertadas, elas jogarão truques;
De fato, uma vez que sua vulva está no cio;
Elas só pensam em conseguir um membro em ereção.
Preserve-nos, Deus! Da malandragem das mulheres;
E das mulheres idosas em particular. Assim seja.

Aqui temos um inventário completo das falhas femininas vistas por homens muçulmanos: o engano, a astúcia, a ingratidão, a ganância, a luxúria insaciável, em suma, uma porta de entrada para o inferno. Em contraste com o que defendeu sobre a posição feminina no Islã em seu “Ensaio Terminal”, Burton – na introdução à sua tradução do Jardim Perfumado um ano depois – finalmente admite “o desprezo que o muçulmano na realidade sente pela mulher.”

Bullough, Bousquet, e Bouhdiba também consideram o Islã como uma religião de visões positivas sobre o sexo em contraste com o Cristianismo, que “tirou algo de impuro da sexualidade”, para usar a frase de Nietzsche. Mas, na última página de sua pesquisa, Bullough se sente obrigado a requalificar suas observações ao admitir, ao mesmo tempo, que o Islã “relegou às mulheres o status de seres inferiores”. Embora ele também pense que o julgamento de Lane-Poole, que diz “a nódoa fatal do Islã é a degradação das mulheres” é “uma opinião exagerada”.

Lane-poole

Lane-Poole (1854-1931), arqueologista britânico.

Da mesma forma, Bousquet compara o Islamismo com o Cristianismo: “O Islã é claramente favorável aos prazeres da carne como tais, sem qualquer consideração secundária. Já o cristianismo é claramente hostil a eles”. Mas ele também tem que admitir “a grande posição inferior imposta à mulher pela lei islâmica, em particular, do ponto de vista sexual.” Bouhdiba, enquanto se regozija com a superioridade do Islã sobre os assuntos sexuais, parece incapaz de encontrar qualquer evidência, pelo menos no Corão, de qualquer misoginia, e desliza alegremente nas suas fantasias sexuais islâmicas de “orgasmo infinito” e “ereção perpétua”.

Enxergar o Islã como “de visão positiva sobre o sexo” é insultar todas as mulheres muçulmanas, pois o sexo é visto inteiramente do ponto de vista masculino; a sexualidade da mulher, como veremos, é algo negado ou, como em O Jardim Perfumado, visto como algo profano, algo a ser temido, reprimido: uma obra do diabo. Mas ainda assim, como Slimane Zeghidour coloca, a sexualidade ocupa um lugar tão fundamental na doutrina islâmica como acontece na teoria psicanalítica. Espero mostrar que é na obsessão com a limpeza que o Islã revela nojo pelo ato sexual e pelas partes sexuais, e que é patológico, e sempre revelou o desdém pelas mulheres.

De acordo com o Dicionário do Islã: “embora a condição das mulheres sob a lei muçulmana seja mais insatisfatória, deve-se admitir que Maomé efetivou uma melhoria acentuada na condição da população feminina da Arábia”. Bousquet concorda: as reformas efetuadas em favor das mulheres fazem Maomé parecer “um campeão do feminismo” nesse contexto histórico particular. Duas reformas frequentemente citadas são: a proibição de enterrar vivas crianças do sexo feminino e  definir o direito de herança das mulheres (“Considerando que”, acrescenta Burton, “na Inglaterra a Lei de Propriedade da mulher casada ‘só foi concluída em 1882 depois de muitos séculos de abuso grosseiro”).

Mas, como Ahmed al-Ali mostra na obra “Organizações Sociais Entre os Beduínos”, a prática de enterrar crianças indesejadas do sexo feminino provavelmente tinha uma origem religiosa e era extremamente rara. Escritores muçulmanos simplesmente exageram a sua frequência para destacar a suposta superioridade do Islã. E com relação à questão da herança, uma mulher tem metade da quota de um homem e, como veremos mais adiante na colocação de Burton, ela, de maneira nenhuma, tem poder total sobre a alienação de sua própria propriedade. Maomé – neste como em tantos outros assuntos – simplesmente não vai suficientemente longe. A ideia de Maomé sobre as mulheres era como a de seus contemporâneos – as mulheres eram brinquedos charmosos e caprichosos, passíveis de colocar alguém no mau caminho.

De acordo com o estudioso Schacht, as mulheres sob o Islã estavam, de muitas maneiras, em pior situação: “O Alcorão em particular tinha incentivado a poligamia, e ela que era uma exceção, agora tornou-se uma das características essenciais da lei islâmica do casamento. Ela conduziu a uma deterioração na posição definitiva das mulheres casadas na sociedade, em comparação com o que tinham desfrutado na pré-islâmica Saudita e isso só foi enfatizado pelo fato de que muitas relações perfeitamente respeitáveis da Arábia pré-islâmica tinham sido proibidas pelo Islã.”

As mulheres beduínas que trabalhavam ao lado de seus maridos gozavam de considerável liberdade pessoal e independência. Levando uma vida não sedentária, pastoreando gado, ela não era nem enclausurada nem velada, porém ativa: suas contribuições para a comunidade eram muito apreciadas e respeitadas. A segregação era totalmente inviável. Se aconteciam alguns maus-tratos por parte de seus maridos, elas simplesmente fugiam para uma tribo vizinha. Apesar do Islã – e não graças a ele – ainda no século XIX, “entre os beduínos, os exércitos são liderados por uma donzela de boa família, que, montada em meio dos homens a camelo, envergonha o tímido e excita o bravo com recitações satíricas ou encomiásticas.”

O historiador árabe do século X – no relato de al-Tabari sobre Hind bint Otba, a esposa de Abu Sufyan, o chefe de uma das famílias aristocráticas de Meca – dá um retrato vívido da independência das mulheres aristocráticas antes do Islã. As mulheres juravam fidelidade tanto quanto os homens, participavam em negociações com o novo chefe da cidade, isto é, o próprio Maomé – e muitas vezes eram francamente hostis à nova religião. Quando Maomé chegou a Meca, em 630 A.D. com 10.000 homens, Abu Sufyan finalmente quis fazer uma rendição formal e jurar fidelidade. As mulheres lideradas por Hind fizeram esse juramento de maneira muito relutante. Hind censurou Maomé por ter obrigações impostas sobre as mulheres que ele não tinha imposto aos homens. Quando o Profeta ordenou-lhes que nunca mais matassem seus filhos, Hind respondeu que esta ordem era bastante finória vinda de um líder militar que tinha derramado tanto sangue na batalha de Badr, quando setenta homens foram mortos e muitos foram presos mais tarde e executados por ordem do próprio Maomé.

Os reformistas muçulmanos modernos e os intelectuais de ambos os sexos, quando confrontados pelo atraso evidente da situação das mulheres (uma situação que permaneceu estagnada durante séculos), tenderam a inventar uma mitológica idade de ouro do início do Islã, quando as mulheres supostamente se beneficiaram de direitos iguais. Por exemplo, até mesmo Nawal el Saadawi, a feminista egípcia que fez mais do que qualquer outra pessoa para incentivar debates positivos sobre o direito das mulheres muçulmanas expressarem sua sexualidade, escreve “a regressão da mulher árabe em filosofia islâmica e em cultura, em contraste com a sua situação na época de Maomé; ou no Espírito (ou essência) do Islã”. Da mesma forma, o argelino Rachid Mimouni diz: “É claro que não é a religião de Deus (que tem a culpa), mas a sua interpretação… O fundamentalismo é uma impostura, pois desacredita a mensagem de Maomé.”

Nawal el Saadawi

Nawal el Saadawi, feminista egípcia.

O pensamento é o de que o Islã não tem culpa pela degradação das mulheres. Todavia, é claro que falar de “essência do Islã” é simplesmente perpetuar a influência maligna da autoridade religiosa e perpetuar um mito. Esses mesmos pensadores muçulmanos, quando confrontados pela evidente misoginia inerente aos textos islâmicos, ficam confusos e angustiados. Recusando-se a olhar a realidade de frente, eles se sentem obrigados a interpretar estes textos sagrados, para desculpar, ou minimizar a hostilidade manifesta às mulheres – em suma, para defender o Islã. Outros tentam argumentar que estas tradições foram perpetuadas por muçulmanos duvidosos cujos motivos eram suspeitos.

No entanto, travar batalha com os ortodoxos, os fanáticos e os mulás na interpretação destes textos é travar uma batalha no território deles e em matérias que eles entendem. Para cada texto que se produz (na tentativa de reinterpretar), eles irão apresentar uma dúzia de outros contradizendo o seu. Os reformistas não podem ganhar nestes termos – qualquer que seja a ginástica mental que executem, não podem escapar do fato de que o Islã é profundamente anti-mulher.

O Islã é a causa fundamental da repressão das mulheres muçulmanas e permanece o maior obstáculo para a evolução da sua posição. O Islã sempre considerou as mulheres como criaturas inferiores em todos os sentidos: física, intelectual e moralmente. Esta visão negativa é divinamente sancionada no Corão, corroborada pelo hadiths e perpetuada pelos comentários dos teólogos, que são os guardiões do dogma muçulmano e de sua ignorância.

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Ibn WarraqSobre o autor: Ibn Warraq é um ex-muçulmano nascido na Índia e criado no Paquistão e na Inglaterra. Famoso pelas suas críticas ao Alcorão e às sociedades islâmicas, Warraq também é fundador do Institute for the Secularisation of Islamic Society  que é um instituto que promove a secularização dessas sociedades.

 

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4 Resultados

  1. DB disse:

    Muito bom! O silêncio das feministas ocidentais é ensurdecedor

  2. Alice disse:

    Como tu é baixo hein cara? Tu vem me mostrar um livrinho de putaria escrito por homens como se tivesse relação com religão? Esse ódio todo contra as mulheres tb existe no ocidente, o q fica muito explícito nas redes sociais. Quer criticar uma religião não precisa ir tão longe, pode pegar vários ditados sexistas de padres do passado, se não me engano do tal de santo agostinho.

    • Khadija Kafir disse:

      Este homem (Ibn Warraq) está tentando proteger as mulheres da sua própria cultura. Ele sente amor e compaixão por elas (as paquistanesas), e não quer que elas sejam estupradas em nome dessa religião machista.

    • RENATO BASTOS disse:

      passado, mas isso ocorre no presente, na violencia de 75% dos muçulmanos

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