Deixando minha crença, depoimento de ex-muçulmano salafista

O jornal The Guardian publicou três histórias de pessoas que perderam a fé em suas religiões. A terceira história é o depoimento de um ex-muçulmano salafista de 26 anos.

Texto de Imad Iddine Habib

Eu nasci em uma sexta-feira na hora das preces, o que foi visto como um sinal auspicioso na minha comunidade. Ao crescer no Marrocos, me diziam constantemente que eu iria me tornar um erudito religioso. Meu nome se traduz como “pilar da religião”. Eu fui colocado em uma escola alcorânica salafista na idade de quatro anos, mas tive dificuldades para ler e recitar os versos do Corão, pois eu era disléxico. Isto foi um grande decepção na minha família, então eu coloquei a maior parte do Alcorão na memória, para me poupar de aborrecimentos. Na época em que eu tinha 13 anos, sabia que eu já não acreditava.

Nossas vidas eram baseadas em uma única versão de uma religião muito maior. Discordâncias eram mal vistas. Nós não deveríamos levantar questões. Eu não conseguia entender por que ninguém debatia ou discutia a opinião dos especialistas e dos imames – de nós era esperado que seguisse cegamente. Muitos dos alunos da minha escola foram ao Afeganistão e à Síria – pois isso havia sido o propósito da vida deles, e embora eu estivesse interessado no Islã sob o ponto de vista acadêmico, eu sabia que não era mais um muçulmano.

Minha fé finalmente se esvaiu na idade de 14 anos. Eu disse a meus pais que eu não acreditava, e também me descobri como pansexual. Eu sentia, e ainda sinto, que eu estava procurando por um contexto mais amplo, mas eles não eram abertos a essa ideia. Eu não podia fazer parte de uma fé que mudava as regras dependendo da situação. A reação da minha família foi típica: muita violência e ameaças no início, e quando não funcionou, minha mãe ficou “doente” por 40 dias, dizendo que eu seria banido do paraíso e a estava fazendo sofrer. Eu estava resoluto, então eles me expulsaram de casa. Virei um sem-teto e não mais os vi ou ouvi falar deles desde então. De algum modo, sinto que abafei o sentimento da perda de minha família em algum lugar. Eu tento não sentir. Há momentos vívidos onde sinto a falta de minha mãe: seu rosto, sua comida, saber que ela está pensando nisso. Mas eu não consigo ficar emotivo.

Vivi de casa em casa e permaneci com amigos. Obtive educação e tenho bacharelado em estudos islâmico. Criei então o Conselho dos Ex-muçulmanos do Marrocos. A resistência é pequena, mas temos voz. Tive que viver escondido e recebi inúmeras ameaças de morte. No Marrocos, o Islã é a religião do Estado, e o Estado considera a todos como muçulmanos por padrão. Você pode ser preso por comer em público durante o Ramadã, então já se pode imaginar como seria meu futuro ali. Há uma crença generalizada de que todo apóstata deve ser morto.

Frequentei uma conferência pública em 2013 e falei abertamente sobre minhas crenças. Estava com medo, mas sentia que era meu dever. Eu chamei o Islã de vírus, e sabia que faria “o circo pegar fogo”. Serviços secretos começaram a me investigar e soube que eles entraram em contato com minha família e questionaram meu pai. Mais tarde, meu pai testemunhou contra mim em um tribunal sob a acusação de apostasia. Quando a situação ficou insuportável, eu sabia que devia ir à Inglaterra como refugiado e começar tudo de novo. Não muito tempo depois que cheguei aqui, fui sentenciado a sete anos de prisão à minha revelia. Desisti de tudo e de todos, mas sou livre.

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5 Resultados

  1. Gabriel Arruda disse:

    Religião Maldita.É como o Nazismo,talvez pior.

  2. não entendi o pq de pegar 7 anos de prisão ?

  3. Vanessa disse:

    Ele deixou o islã, se tivesse ficado no Marrocos provavelmente seria morto, destino dado aos apóstatas. Sou uma, graças a Deus!

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