O Islã é uma religião de paz?

Por Ayaan Hirsi Ali

O texto abaixo é a transcrição do vídeo:

“Eu fui educada como muçulmana praticante e permaneci assim quase a metade da vida. Eu frequentei madrassas, que são escolas islâmicas e memorizei grandes partes do Corão. Quando criança, vivi em Meca por um tempo e frequentemente visitava a grande mesquita. Quando adolescente, eu simpatizava pela Irmandade Muçulmana (partido político). Aos 22 anos, quando minha família vivia no Quênia, meu pai me arrumou um casamento com um membro do clã da família, um homem que eu nunca tinha conhecido. Eu fugi, parti para a Holanda, estudei lá e fui eleita membro da parlamento holandês. Agora, eu vivo nos Estados Unidos. Pra resumir: eu vi o Islã por dentro e por fora.

Eu acredito que uma reforma no Islã é necessária e possível. E só os muçulmanos podem fazer desta reforma uma realidade. Mas nós no Ocidente não podemos ficar no meio do muro, como se o resultado desta luta não tivesse nada a ver conosco. Se os jihadistas ganharem e se a esperança pela reforma do Islã morrer, o resto do mundo vai pagar um preço terrível. Os ataques terroristas em Nova Iorque, Londres, Madri, Paris e muitos outros lugares são apenas o prelúdio daquilo que está por vir. Por esta razão, creio ser tolo insistir, como fazem os líderes ocidentais, que os atos violentos cometidos em nome do Islã podem, de alguma maneira serem divorciados da religião em si. Por mais de uma década, minha mensagem tem sido simples: O ISLÃ NÃO É UMA RELIGIÃO DE PAZ!

Quando eu digo isso, não quero dizer que a crença islâmica faça todos os muçulmanos ficarem violentos. Este realmente não é o caso. Há milhões de muçulmanos pacíficos no mundo. O que eu realmente digo é que o culto a violência e sua justificativa são explicitamente atestadas nos livros sagrados do Islã. Além disso, esta violência teologicamente sancionada está lá para ser usada para um grande número de ofensas, incluindo, mas não limitado por: adultério, blasfêmia, homossexualidade, e apostasia – que é quando se deixa o islã.

Aqueles que toleram esta intolerância o fazem para seu próprio risco. Como alguém que soube o que é viver sem liberdade, eu fico pasma de ver pessoas que se intitulam “liberais” ou “progressistas”, pessoas que dizem acreditar com tanto fervor nas liberdades individuais e nos direitos das minorias, se unirem com as forças que abertamente representam a maior ameaça a essa mesma liberdade e a liberdade das minorias.

Em 2014, eu fui convidada a aceitar um título honorífico da Universidade de Brandeis pelo trabalho que fiz na luta a favor dos direitos das mulheres no mundo islâmico. Este convite foi revogado depois que professores e estudantes protestaram contra minhas críticas ao Islã. Meu “desconvite” – como foi chamado depois – não ajudou aos muçulmanos em nada. Muito pelo contrário! Ao chamarem minhas críticas contra o Islã de “racistas”, tornam a reforma do Islã muito menos provável de acontecer. A propósito, não há limites à crítica contra o Cristianismo nas universidades americanas ou em outro lugar. Por que deveria haver no Islã?

Em vez de contorcerem tradições intelectuais do Ocidente para que não se ofendam os cidadãos muçulmanos, precisamos defender tanto as tradições quanto os muçulmanos dissidentes, que correm grandes riscos para preservá-los. Devemos ajudar estes bravos homens e mulheres de todos os modos possíveis. Imagine uma plataforma para muçulmanos dissidentes que comunicasse sua mensagem pelo YouTube, Twitter, Facebook e Instagram. Estes são os muçulmanos que deveríamos estar apoiando para o nosso próprio bem e pelo Islã.

Na Guerra Fria, o Ocidente homenageou dissidentes como Alexander Solzhenitsyn, Andrei Sakharov e Václav Havel, que tiveram a coragem de desafiar o regime soviético por dentro. Hoje há muitos dissidentes que desafiam o Islã. Mas o Ocidente ou os ignora, ou os consideram como “não representativos”. Isso é um grave erro! Reformadores tais como Tawfiq Hamid, Asra Nomani, Zuhdi Jasser e muitos outros, devem ser apoiados e protegidos. Eles deveriam ser conhecidos como os Solzhenitsyn,  Sakharov e Havel foram na década de 80. Se apoiamos a liberdade religiosa e social, então não podemos de livre consciência dar carta branca para o Islã com a desculpa de não ferir o multiculturalismo. Precisamos dizer aos muçulmanos que vivem no Ocidente: “se você quer viver em nossa sociedade e compartilhar dos nossos benefícios materiais, então precisa aceitar que nossas liberdades não são opcionais”. O Islã está no meio de uma reforma ou de uma auto destruição. Mas o Ocidente também!

Sou Ayaan Hirsi Ali da universidade de Harvard para universidade de Prager.”

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Sobre a autora: Ayaan Hirsi Ali é uma ex-muçulmana nascida na Somália que se tornou famosa ao publicar uma autobiografia intitulada Infiel- a história de uma mulher que desafiou o Islã. Também é autora de outros livros: A Virgem na Jaula e Nômade. Porém seu mais novo livro chama-se Herege – por que o Islã precisa de uma reforma imediata. Todos os seus livros são publicados no Brasil pela editora Companhia das Letras. Formada em Ciências Políticas, Ayaan Hirsi Ali é a mais notória das pessoas que criticam o Islã e faz frequentes aparições na mídia em todo o mundo.

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