Por que deixei o Islã e agora ajudo outros a deixar

Texto de Imtiaz Shams

A primeira coisa que você deve saber sobre os ex-muçulmanos é que o termo em árabe para nos descrever é basicamente um palavrão: murtardd, que significa “voltar as costas” ao Islã. A palavra tem uma conotação suja, um sentimento de cuspida no chão, com um R pronunciado de maneira rolante e um som pontudo ao final. Isso é o começo do que você deve passar se alguma vez quiser desempacotar a discriminação sistemática e ubíqua que enfrentamos em todos os aspectos de nossas vidas.

Uma forma chave de discriminação é a rasura, ou a minimização de nossa experiência pelos estereótipos, sendo o mais comum aquele que diz: “Provavelmente você não era um muçulmano de verdade”. Eu passei metade da minha vida crescendo na Arábia Saudita, viajando para Meca para a Umrah, a sagrada peregrinação. Meu primeiro livro foi uma cópia de capa lindamente vermelha com detalhes em ouro de uma compilação dos hadiths (tradições) do profeta Maomé e seus Sahaaba (companheiros). Eu tenho rezado, jejuado e memorizado o Alcorão desde que posso me lembrar e devoraria livros que sondava as verdades do Islã através de seus milagres científicos e códigos morais.

Minha família se mudou ao Reino Unido antes do 11 de setembro, e muitos muçulmanos vão entender o que quero dizer quando falo que a atmosfera mudou depois daquele dia. Na escola, os meninos me apelidavam “terrorista” e até os dias de hoje eu tenho uma camiseta onde alguns deles desenharam explosivos e bombas no meu último dia de aula no Ensino Médio. Aquela discriminação não afetava o que era então um profundo e duradouro amor pelo Islã – apenas o fortificava.

Então o que aconteceu? Se tudo estava planejado para que eu passasse minha vida como muçulmano praticante, por que eu deixaria de sê-lo? Um dos pilares chaves da ortodoxia islâmica é a sua natureza perfeita e a infalibilidade do Alcorão, afirmações essas firmemente sustentadas por duas décadas. Mas quando eu fiquei mais velho e meu senso crítico se desenvolveu, as verdades aceitas sobre moralidade das ações do Profeta e os milagres do Alcorão ficaram mais difíceis de digerir.

Eu parei de acreditar que as montanhas eram “estacas” ou “marcações” protegendo a Terra de terremotos. Ironicamente, as montanhas são mais comuns onde os terremotos acontecem mais plenamente: nas zonas tectônicas.

Eu não mais acreditava que o Islã tinha vindo para eliminar progressivamente a instituição repugnante da escravatura. Em vez disso, eu comecei a sentir que a institucionalização da escravatura nos textos islâmicos veio sob os auspícios dos “prisioneiros de guerra”, permitindo que milhões de africanos e não árabes fossem feitos escravos por vários Califados, em alguns lugares, excedendo o horrível comércio transatlântico de escravos.

Eu pensava que o Islã tinha dado às mulheres direitos iguais aos dos homens, e isso pode ou não ser verdade, se levarmos em conta que nos referimos a 1.400 anos atrás. Todavia, tomado literalmente, a mesma escritura pode ser usada para reduzir sua herança e seus direitos legais, reforçar vestimentas ritualísticas e outras práticas, bem como transformá-las em objetos de escolha ou invisíveis aos homens, bani-las de se casar com os não muçulmanos mas dar esse direito aos homens… a lista prosseguia na minha mente.

Apesar de tudo isso, eu não podia aceitar internamente que eu tinha deixado o Islã pois eu não sabia que podia.  Só a ideia de que alguém pudesse ser um muçulmano praticante e deixar o Islã era completamente alheia a mim. Eu finalmente fui forçado a aceitar que eu não mais acreditava no Islã no começo de 2012, mas eu não em que me espelhar, e ninguém que entendesse aquilo que eu ia falar. Minha amiga Aliyah descreveu esse estágio como ser “um alienígena em sua própria pele” e eu me senti completamente exilado.

Outro sentimento que permeava minha apostasia era o medo. O Islã se apresentava como um diagrama completo e objetivo para a minha vida, com a missão de ditar meu papel neste mundo e minhas relações com a morte e com a vida póstuma. Isso me fez crer que sem a religião, mesmo que eu vivesse fazendo a diferença neste mundo, eu não mais seria um abd Allah, um escravo de Alá, e assim minha vida seria sem lógica. Narrava-se que o dia do julgamento (Yawm al-Qiyamah) viria e eu seria julgado como apóstata, um dos piores pecados; e lançado ao Jahannum (inferno). A linguagem que gira em torno do inferno na escritura islâmica pode ser aterrorizante – será que é alguma surpresa que os ex-muçulmanos tenham que lidar com a ansiedade que isso cria?

Este período de isolamento e medo não durou muito tempo, pois eu rapidamente encontrei outros quando acabei indo parar em um grupo no Reddit que se chamava /r/ exmuslim. Subitamente, eu tive acesso a milhares de ex-muçulmanos ativos, suas histórias, conselhos e experiências de discriminação. Quase todos esses usuários eram anônimos porque herdavam riscos sociais e físicos por deixar o Islã, então eu comecei a me identificar. Eu cheguei com um protocolo de identificação, checando cuidadosamente as pessoas uma por uma. Compartilhar a história pela primeira vez com outro ex-muçulmano é emocionante, havia tantos de nós para partilhar. Claro que ainda nos sentíamos como aliens, mas havia muitos aliens então nos sentíamos mais confortáveis dentro de nossa própria pele.

Nessa época, eu tive a chance de conhecer dois advogados gays que me deram um conselho: o que realmente mudou para a comunidade GLBT na Grã-Bretanha não foi apenas ficar em comunidades organizadas, mas o fato de que eles vieram a público. Isso fez muito sentido para mim, então eu juntei forças com Aliyah Saleem, uma ex-muçulmana feminista e ativista, e nós começamos o que se tornaria o “faith to faithless”, uma organização que cria plataformas tanto dentro da internet quanto fora dela, para promover a voz dos apóstatas.

O primeiro evento do Faith to Faithless foi há um ano, na Universidade Londrina de Queen Mary (QMUL). Embora tivéssemos membros da sociedade islâmica e grupos de da’wah (pregação) panfletando no nosso evento, o sucesso foi massivo. Alguns dos ex-muçulmanos que conhecemos lá haviam palestrado em outros eventos. Recebemos apoio do público em geral (incluindo muçulmanos), também recebemos muitas cartas de ódio e abuso. Havia pessoas que cuspiam no chão e me chamavam de murtadd, enquanto que os insultos às mulheres do Faith to Faithless eram sempre recheados de termos asquerosamente sexistas. Pior ainda é que éramos rebaixados por aqueles que deviam estar nos ajudando, incluindo algumas feministas e ativistas de esquerda, que usavam termos raciais como “informantes nativos” para nos descrever, subestimando nossa agência como uma minoria dentro de uma minoria.

Como você pode imaginar, muitos ex-muçulmanos entram em contato com o Faith to Faithless por querer conselhos ou ajuda urgente e tem enfrentado abuso em diferentes formas. Alguns, embora aceitos como membros por suas famílias, são advertidos constantemente que vão “queimar no inferno” e deveriam se arrepender. Outros são jogados na rua sem nenhum tipo de ajuda financeira. Outros são fisicamente agredidos, tal como uma ex-muçulmana que levou um murro no estômago dado pelo irmão e depois foi trancada no quarto pelos pais.

É importante notar que nem todos os muçulmanos tem tratado os apóstatas desse jeito. Algumas das vozes mais importantes para mim foram a de meus amigos muçulmanos que me mandaram mensagens privadas mostrando seu apoio e amor. Nós precisamos ser capazes de ficar de pé e lutar contra ambas as discriminações: contra os muçulmanos e contra os apóstatas, o que frequentemente vem junto. Se você é um jovem ex-muçulmano que deixou sua fé e se sente só ou isolado, entre em contato. Você definitivamente não está sozinho.

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Sobre o autor: Imitiaz Shams é fundador do grupo FAITH TO FAITHLESS que ajuda e dá apoio aos ex-muçulmanos. O vídeo a seguir traz mais informações sobre o assunto.

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1 Resultado

  1. Esse ai vai morrer logo logo na mão de outros muçulmanos, afinal, o islã é uma religião de paz.

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