Sara Haider: deixando o Islã

Por Malhar Mali.

Sara Haider é uma ex-muçulmana que dirige o Ex-Muslims of North America (Ex-muçulmanos da América). Ela já fez aparições em programas de TV tais como The Rubin Report, The David Pakman Show, e já deu palestras para o American Humanist Association. Eu a entrevistei sobre sua jornada na apostasia, em como discutir o Islã sem ser taxada intolerante e sobre suas esperanças para o futuro.

Malhar Mali: Pode nos contar um pouco sobre como você passou da crença para a descrença?   

Sara Haider: Como acontece com a maioria das pessoas, tudo começou antes mesmo de eu saber que havia começado. Eu questionava partes da fé, mas pensava que era o processo natural de conhecer melhor minha religião e eu culpava muitos dos meus desentendimentos no modo como eu fora ensinada sobre o Islã. Eu pensava que eu só precisava de professores melhores, livros e recursos, de modo que eu pudesse entender corretamente. Desde modo, eu não sabia que estava em processo de deixar a religião, mas no processo de melhor conhecê-la.

Mas daí eu mesma comecei a examinar as escrituras, isto é, eu li o Corão diretamente e li os Hadiths diretamente. Julgando por mim mesma, percebi que não era a religião que eu pensava que fosse. Não era nada do que havia me ensinado – me ensinaram que era a religião que promovia os direitos da mulher, por exemplo, e que era a religião mais benéfica para as mulheres.

MM: Claro. Como os artigos que apareceram no  The Huffington Post, etc.

SH: Você encontra essa opinião em todo lugar; dos muçulmanos, se cresceu em um ambiente islâmico. E você tem razão: o Huffpost e muitos esquerdistas da mídia ficam dizendo isso também. Então eu acreditei. Eu ignorava qualquer pessoa que fosse de direita, porque não era minha visão política, e eu pensava que eram todos racistas, intolerantes, então não os levei a sério.

Todo mundo em quem eu prestava atenção me dizia que o Islã era uma religião humanista maravilhosa. Mas quando eu a examinei, ficou claro que não era.

MM: Então houve algum momento de reviravolta neste processo? 

SH: Desde o momento em que comecei a questionar, meu principal objetivo era descobrir se a religião era moral ou não. O caminho foi curto. Quando a olhei com olhar crítico, eu a abandonei em dois meses. Lembro-me quando um amigo ateu me mostrou uma lista com versos corânicos que era realmente horríveis. Ele os entregou a mim e disse: “explique isso!”. Na hora pensei que seu gesto fosse rude e que ele estava entendendo mal e tirando as coisas do contexto.

Mas quando examinei os versos e descobri o contexto, ele ficou pior. Ficou menos humano e menos compreensível. Então não havia o que questionar minha saída (da fé) depois disso.

MM: Nos círculos esquerdistas do mundo ocidental, qualquer crítica ao Islã é considerada “islamofobia”  — talvez por causa de matérias como as do The Hufftington Post, Salon e The Daily Show, etc. Na sua opinião, qual é o melhor modo de discutir esse tópico e aplicar o criticismo apropriado? 

SH: Boa pergunta, mas não acho que tenha resposta definitiva – não tenho certeza do que é “apropriado” aqui. Se você está conversando com gente de esquerda, eles não vão aceitar nenhuma crítica negativa ao Islã, não importa o quão bem intencionada seja, nem o quão bem embasada.

As pessoas me perguntam isso com frequência e eu não consigo imaginar ninguém que seja um crítico feroz do islã que não tenha sido taxado de preconceituoso, ou de “islamofóbico” por alguns segmentos da população.

MM: Do jeito que julgam Maajid Nawaaz e Ayaan Hirsi Ali…

SH: Sim. Então eu julgo os muçulmanos nos mesmo padrões com que eu julgo os outros. Em muitos casos, isto faz mal à reputação dos muçulmanos. Podemos olhar o modo como eles praticam sua religião pelo mundo e ver que são menos tolerantes, menos aceitadores de minorias religiosas, mais misóginos e mais homofóbicos.

MM: Um dos fenômenos mais frustrantes no mundo ocidental é ver indivíduos que se rotulam “da esquerda” colocarem a cabeça na areia quando o assunto é a violação dos direitos humanos em países islâmicos, pois eles não conseguem superar a ideia de que “criticar gente de cor é racista”. Para mim, isso criou um vácuo onde aqueles na extrema direita tomam o controle, muitas vezes de modo preconceituoso. Como podemos fazer para quebrar o tabu?  

SH: Quando eu comecei a examinar os problemas que temos ao discutir o Islã, descobri que havia dificuldade em superar o conceito de que criticar gente de cor é inerentemente algo racista. As pessoas são rápidas em taxar rótulos como “preconceituoso” ou promover a ideia de que você é uma pessoa detestável por sustentar opiniões controversas. É o problema mais amplo de nossa cultura – usamos a vergonha como mecanismo para controlar as pessoas.

Há um grupo mais amplo de pessoa que tem sentimentos negativos sobre a “religião da paz” e não há maneira de abordar o tópico em uma sociedade “polida e educada”. Os piores são aqueles que são mais bonzinhos – os esquerdistas – pois são mais eficientemente silenciados pelo rótulo de preconceituoso ou “islamofóbico”. Eles não querem contribuir de maneira acidental em criar uma atmosfera perigosa para os muçulmanos, então ficam de fora. Tais pessoas não deveriam ficar caladas, as vozes delas são as mais necessárias.

Os que são preconceituosos de verdade vão ficar dizendo o que querem, pois os rótulos não os intimidam no mesmo grau que aos esquerdistas. Então temos esses dois lados- os preconceituosos e os muçulmanos – algo extremamente polarizado em suas visões, e não há discussão real no meio termo.

MM: Continuando, o que a organização Ex-muslims of North America (Ex-muçulmanos da América do Norte) faz e quais as suas metas? 

SH: Começamos com a meta de construir comunidades para ex-muçulmanos e que ainda permanece nossa meta principal. Como você talvez já saiba, é difícil para um apóstata sair do armário sobre a sua falta de fé. Eles enfrentam o estigma social dos amigos e da família e da comunidade hospedeira. Muitos deles são imigrantes, então é difícil para eles se ajustarem na cultura americana mais ampla.

Quando se sai de uma religião existe uma perda de duas coisas, a religião e um tanto da identidade cultural. Nós queremos mitigar este senso de perda, então decidimos ter encontros pessoais para que se adotasse uma comunidade. Escolhemos a pessoa antes de ela vir, para que se proteja a privacidade e o anonimato. A meta é dar apoio pela internet, onde tais pessoas possam se sentir confortáveis consigo mesmas. Desde então, mais pessoas estão saindo do armário e confessando a apostasia. Recentemente, embarcamos em um projeto de fazer vídeos sobre pessoas que querem desabafar e vir a público como apóstatas, bem como compartilhar suas experiências. Queremos mostrar a variedade dos ex-muçulmanos e suas experiências.

MM: Dentro de 5 anos, o que você gostaria que acontecesse no debate sobre o Islã no mundo ocidental? 

SH: Eu queria que a ideia de que todas as religiões são iguais e que têm o mesmo impacto sobre as pessoas fosse superada. Soa como algo óbvio, mas muitos da esquerda ainda não se deram conta disso. É lógico que as religiões não têm o mesmo impacto sobre as pessoas; elas não têm as mesmas consequências; elas não treinam todos os humanos para verem o mundo da mesma maneira. Temos que começar esse debate e encarar esse fato diretamente. Se a gente chegar lá, seremos mais honestos nos argumentos.

Mas infelizmente, agora, não estamos lá. Não estamos olhando a questão com honestidade.

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Malhar Mali escreve sobre secularismo, direitos humanos, política e cultura  para a revista Aero. Pode-se entrar em contato com ele pelo Twitter. @MalharMali

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