Sufismo, o misticismo islâmico

Texto de Ibn Warraq

Capítulo 12 do livro Why I am not a muslim (Por que não sou muçulmano).

Como disse um dos maiores estudiosos do sufismo, R. A. Nicholson, os Sufis mais antigos eram ascetas e quietistas em vez de verdadeiros místicos. Esses primeiros Sufis eram inspirados por ideais cristãos, buscando a salvação evitando as delícias vulgares do mundo. Eventualmente, o ascetismo era visto apenas como a primeira fase de uma longa viagem cujo objetivo final era um profundo e íntimo conhecimento de Deus. Luz, conhecimento e amor foram as principais ideias deste novo Sufismo. “Por fim, eles repousaram sobre uma fé panteísta que depôs o Deus único e transcendente do Islã, e em seu lugar, adorou um Ser Real que habita e trabalha em todos os lugares, e cujo trono não é menos, e sim mais, no coração humano.”

Os sufis foram – sem dúvidas – influenciados por certas passagens do Alcorão, mas o desenvolvimento histórico do sufismo deve muito mais à influência do Cristianismo, Neoplatonismo, Gnosticismo e Budismo (os sufis aprenderam o rosário dos monges budistas, entre outros assuntos mais substanciais).

Para nós, neste capítulo, o que nos interessa é o modo como os sufis mais recentes romperam completamente com a lei formal islâmica, dizendo que “as algemas da lei não atingem aqueles que alcançaram o conhecimento”.  Isto era verdade tanto para indivíduos quanto para ordens inteiras de dervixes. Muitos sufistas eram bons muçulmanos, mas alguns o eram só de nome, enquanto que um outro grupo era muçulmano só “por moda”. Um dos personagens mais importantes na história do Sufismo, Abu Said, não sentia nada mais que o desprezo pelo Islã e por toda religião impositiva, proibindo a seus discípulos de irem em peregrinação a Meca, e outras coisas. Bayazid também tinha pouco apreço pela observância dos preceitos da Sharia.

A Ordem Bektashi parece ter surgido por volta do início do século XVI. Fortemente influenciado pelas ideias cristãs e gnósticas, os Bektashis rejeitaram as as cerimônias externas do Islã e de outras religiões como sendo inúteis.

Houve até um grupo de dervixes, coletivamente conhecido como malamatiya, que cometeu os atos mais ultrajantes possíveis para chamar de propósito a atenção da população. Assim eles mesmos puderam mostrar que sentiam desdém pelo desprezo que os outros tinham deles.

A grande conquista dos sufis foi sua insistência de que a verdadeira religião não tinha nada com a doutrina legal da ortodoxia, que apenas restringia os horizontes dos homens. Na visão mística, não havia recompensas celestiais ou punições infernais, a palavra escrita de Deus foi ab-rogada por revelação íntima e direta. Em vez de ser guiado pelo medo, o místico está mais preocupado com o amor e o conhecimento de Deus, desinteressado de si mesmo, e “a servidão para com Deus é considerada uma serviço para com o coração”, em vez de observâncias a regras externas que devem ser seguidas cegamente.

Quanto mais o sufismo caminhava para o panteísmo, mais ele produzia

uma série de trabalhos, que, sob a pretensa ortodoxia e devoção, na realidade substituíram a noção do Deus pessoal e da vida futura do Islã, noções que eram irreconciliáveis com as deles, e que tinha base em uma interpretação tão distanciada do Alcorão que chegava a ser grotesca e irrelevante. O mais famoso desses trabalhos são os poemas de Ibn al-Farid ( 1161- 1235); e os trabalhos de Ibn Arari (1155-1240), “Gems of Maxims” (sem tradução em Português). Ambas as obras, em diferentes épocas, fizeram seus autores ficarem em perigo, e foram causa de motins (ver Ibn Lyas, History of Egypt,… onde o livro é descrito como obra pior do que a dos descrentes, judeus, cristãos ou idólatras). Pelos comentários sobre o Alcorão contidos na obra, é suficiente citar que na história do bezerro de ouro, de acordo com Ibn Arabi, Moisés pensou que seu irmão era culpado por não aprovar a idolatria do bezerro, uma vez que Aarão sabia que nada mais além de Deus merecia ser objeto de adoração, e portanto o bezerro era (como todas as coisas) Deus.   (Margoliouth)

A filosofia sufista teve a consequência de apagar as fronteiras entre os credos diferentes – o Islã não era melhor do que a idolatria, ou, como um estudante de Ibn Arabi colocou: “o Alcorão é o politeísmo puro e simples”. Ibn Arabi mesmo escreveu que seu coração era um templo para os ídolos, uma Caaba para os peregrinos, as tábuas da Torá e o Alcorão; somente o amor era sua fé.

“Eu não sou nem cristão, nem judeu, nem muçulmano”, canta outro místico. Os sufis não davam muito espaço para os diferentes credos e suas particularidades. Como Abu Said escreveu: “até que as mesquitas e as madrassas sejam eliminadas, o trabalho dos dervixes não será realizado, até que a crença e a descrença sejam parecidas, nenhum homem é um verdadeiro muçulmano”. E para citar Nicholson:

“O amor é onde a glória cai,

sobre seu rosto – nas paredes do convento

Ou no chão das tabernas, a mesma

chama inextinguível.

Onde o anacoreta de turbante

Canta para Alá dia e noite

Os sinos da igreja chamam para oração

e a cruz de Cristo lá está”.

Vários sufis famosos foram – nas palavras de Goldziher – “submetidos a uma cruel inquisição”. Os sufis mais antigos, levantaram uma suspeita considerável nas autoridades ortodoxas e podem ser vistos na história do sufi  Dhu ‘l Nun. Este sufi tinha muitos discípulos e muita influência sobre as pessoas, tanto que foi denunciado como zindiq (herege) pelos invejosos. O califa Mutawakkil o tinha colocado na prisão, porém mais tarde foi solto por suas qualidades morais.

Talvez o místico mais famoso que já foi condenado a morte por seus enunciados blasfemos foi al-Hallaj (executado em 922). Ele passou muitos anos na prisão antes de ser açoitado, mutilado, condenado a forca e finalmente decapitado e queimado, tudo porque advocava a piedade pessoal em vez das lei e porque tentou conciliar os “dogmas em harmonia com a filosofia grega na base da experiência mística”. Doze anos mais tarde, al-Shalmaghani também foi condenado à morte sob a acusação de blasfêmia.

Al-Suhrawardi (executado em 1191) foi a princípio apadrinhado pelo vice-rei em Alepo, mas seu misticismo levantou suspeita entre os ortodoxos, que acabaram exigindo sua execução. O vice-rei não ousou se opor aos “verdadeiros crentes”, e assim Suhrawardi foi executado.

Badr al-Din, o eminente jurista, fora “convertido” ao sufismo depois de um encontro com um sufi, Shaikh Husain Akhtali. Ele se envolveu com um grupo comunista (de Burkludje Mustafa e Torlak Hu Kemal ), foi preso, e enforcado como traidor em 1416.  Havia desenvolvido abertamente suas heresias baseadas nas visões do místico Ibn al-Arabi.

O Islã é tolerante com as heresias?

Desde seu início, o Islã desenvolveu a ideia de bid’ha – inovação – e de acordo com um hadice famoso, cada inovação é uma heresia, cada heresia é um erro e cada erro leva ao inferno. A inovação era o oposto da suna. Alguns teólogos dos anos iniciais chegaram ao ponto de exigir a pena de morte para qualquer pessoa que introduzisse inovação. Felizmente, esta atitude não durou quando a necessidade de introduzir novas práticas surgiu, e daí, uma distinção foi feita entre bid’ha boa (inovação boa) e bid’ah ruim (inovação ruim). Nas palavras de al-Shafi’i: “Uma inovação que contradiga o Alcorão, a suna, ou a ijma (consenso dos imames) é uma bida herética, se todavia algo novo for introduzido, mas que não seja ruim em si mesmo e não contradiga as autoridades mencionadas da vida religiosa, então ela é digna de louvor”. Esta conveniência possibilitou que os muçulmanos aceitassem como inovação boa coisas que – em teoria- eram absolutamente contrárias ao Islã.

Não há comparação entre o dogma do Islã e o dogma de qualquer sistema religioso de qualquer igreja cristã. No Islã, não há Concílios ou Sínodos que, depois de vigorosos debates, fixem as fórmulas que devam ser tratadas como crença. Não há escritório eclesiástico que providencie um padrão para a ortodoxia. Não há exegese autorizada exclusiva dos textos sagrados, sobre a qual as doutrinas da Igreja e a maneira de sua aplicação devam ser baseados. O consenso é a mais alta autoridade em todas as questões religiosas e práticas, mas é uma autoridade vaga, e seus julgamentos dificilmente podem ser determinados de maneira precisa. O próprio conceito de consenso é definido de maneira variada. Em matéria de teologia, é especialmente difícil atingir a unanimidade sobre o que é aceito sem disputa, como um veredicto. Onde uma parte enxerga consenso, a outra pode estar longe de ver isso.

Apesar dos pensamentos de Goldzier na passagem acima, isso dá uma noção errada do Islã como sendo livre de doutrinas e onde se pode tudo. Se fosse assim, qual seria a lógica de se chamar alguém ao Islã? Ao contrário da ideia de um Islã fluido e escorregadio, Schacht põe diante de nós a noção de que, por exemplo, a lei islâmica se tornou “cada vez mais rígida” e estabelecida em seu molde final. É verdade que houve, como sempre, uma enorme discrepância entre teoria e prática, mas a lei islâmica realmente triunfou em se impor na prática, especialmente com respeito a família.

Pode não ter havido uma só corporação eclesiástica para fixar o dogma dos crentes, mas na realidade, através da história islâmica, certas doutrinas foram definitivamente adotadas em certas partes do mundo. Por exemplo, por volta de 1048- 1049, a doutrina da escola de Malik foi adotada no Magrebe. “O triunfo dessas doutrinas causou o abandono de todos os esforços em procurar uma interpretação alegórica para estes versos do Corão, pelo qual não houve interpretação literal satisfatória. Não tivesse Malik dito “sabemos que Alá está sentado em seu trono, mas não como esse mundo deve ser entendido. Acreditar nisso é um dever, perguntar sobre isso é heresia”. Em outras palavras, certa doutrina fora adotada e colocada em prática, e representava a ortodoxia – não havia o questionamento de uma doutrina livre para todos, ou liberalismo.

Um pouco mais tarde, em 1130, o estado almohade foi fundado no norte da África e na Espanha e foi baseado em princípios definidos derivados dos ensinamentos autoritários de Ibn Tumart. Não havia necessidade de um corpo da igreja para estabelecer o dogma; os governantes do novo Estado fizeram isso.

Muitos apologistas do Islã que desejam defender a tese de que essa religião era muito tolerante com a dissidência e a heresia citam as obras de Ibn Taymiyya e Al-Ghazali, que supostamente têm esticado “os limites do Islã ao máximo”.
A crença mínima que era necessária para ser considerado como um muçulmano era a unidade de Deus e a profecia de Maomé. Mas mesmo esse mínimo não é tão liberal quanto parece e foi suficiente para excluir os dualistas (os verdadeiros inovadores), os sufis, que não tinham muito respeito pelos profetas; e os livre pensadores que achavam que todos os profetas eram charlatães. Além disso, como vimos anteriormente, al-Ghazali, longe de ser tolerante, baniu do Islã aqueles que acreditavam na eternidade do mundo e negavam a ressurreição do corpo, considerando-os incrédulos, e até pedindo sua execução. Pelos critérios de al-Ghazali, alguns dos maiores filósofos e poetas do Islã estavam aptos para a forca. E, como sempre, o incrédulo nunca é de alguma forma considerado quando se discute qualquer avaliação final da tolerância do Islã.

A descrença é o maior de todos os pecados, mais grave do que o assassinato, e traz consigo a pena de morte. Finalmente, que evidência há de que as obras de al-Ghazali ou Ibn Taymiyya tiveram alguma influência na prática? Estes mesmos apologistas, com razão, apontam a discrepância entre teoria e prática, e contudo estão muito felizes em citar as opiniões dos dois teólogos sem verificar se suas teorias foram aplicadas na prática. De fato, sabemos que no Ocidente Islâmico, os escritos de al-Ghazali foram queimados porque eram considerados perigosos e contrários à verdadeira fé.  O Islã era tolerante na prática?

A resposta curta é não. A passagem precedente de Goldziher também dá a impressão de que o Islã estava livre de perseguição aos hereges. Espero que este capítulo tenha despertado os leitores deste mito. Mesmo o grande Goldziher tem de admitir que “o espírito de tolerância prevaleceu apenas no período inicial … O espírito maligno da intolerância apareceu pela primeira vez em ambos os lados … como resultado do cultivo da teologia dogmática escolástica”. Foi deixado ao sufismo rejeitar as distinções confessionais e espalhar o bálsamo da tolerância. Como a distinção entre religião e política era desfocada, especialmente sob os abássidas, toda doutrina perigosa tinha seu aspecto religioso e político. As autoridades políticas perseguiram o que consideravam seitas subversivas, responsabilizando-as pela instabilidade civil.

Os abássidas perseguiram impiedosamente os Shikes, muitos dos quais foram aprisionados, enforcados ou envenenados. Mas os omíadas não estavam inteiramente sem suas inquisições – testemunha a queima, em 737, de Bayan al-Tamimi, o xiita, juntamente com al-Mughira b. Sa’d e alguns de seus seguidores, que o consideravam divino. Também não devemos esquecer a eliminação cruel dos Carijitas sob o governador do Iraque, al-Hajjaj, nos primeiros anos do governo omíada.

Os abássidas terminaram com a adesão ao poder do califa Mutawakkil, que inverteu a situação declarando as doutrinas mu’tazilitas como heréticas e retornando à fé tradicional. Medidas severas foram tomadas contra aqueles vistos como hereges. Nas palavras de Nicholson, “doravante havia pouco espaço no islã para o pensamento independente.” A população considerava a filosofia e as ciências naturais como uma espécie de descrença. Os autores de trabalhos sobre esses assuntos correm um risco sério a menos que disfarçassem suas verdadeiras opiniões e trouxessem Os resultados de suas investigações em aparente conformidade com o texto do Alcorão.” A situação, sem dúvida, variou de país para país, governante a governante, período a período. Em geral, os omíadas são vistos como mais tolerantes do que os abássidas, precisamente porque ainda não se definiam como muçulmanos.

Esta tolerância teve frequentemente consequências ímpares: “é característica do espírito anti-islâmico que aparece tão fortemente nos omíadas que seu louvado escolhido deve ter sido um cristão que era na verdade um descendente linear dos bardos pagãos.” Al-Akhtal, que é considerado um dos três maiores poetas do período dos omíadas, era um cristão capaz de aparecer na corte sem aviso prévio, chegando à presença do califa cheirando a vinho e ostentando uma cruz de ouro. Essa tolerância era prova para Henri Lammens de que os omíadas estavam mais para árabes do que para muçulmanos.

Um ponto importante, a saber: desde que se tenha um patrocínio real, proteção e talento, então pode-se safar com a blasfêmia, a heresia e até a incredulidade. Por exemplo, a família persa dos barmecidas era conselheira de vários califas abássidas, embora muitas vezes fossem acusados de descrença, ou pelo menos de abrigar secretamente sentimentos anti-islâmicos. Quando o favor real foi retirado, esta família influente não gozou mais de proteção.

Uma indicação de que a heresia não era tolerada sob o Islã é o fato de quem quisesse eliminar um rival, podia acusar essa pessoa de heresia. Exemplo: Abu Ubaid conquistara uma grande reputação para si mesmo na corte abássida e fora rapidamente promovido. Funcionários invejosos, ressentidos com seu sucesso, acusaram o filho dele de heresia. O filho foi convocado ante ao califa e pediram para que lesse o Alcorão colocado na frente dele. Sendo praticamente analfabeto, tropeçou em algumas linhas. Isso foi tomado como prova de que ele era um livre-pensador e, portanto, foi executado. O medo de ser rotulado de herege era onipresente. Uma história famosa relata a primeira vez que o filósofo Averroes foi apresentado ao governante Abu Yaqub Yusuf. Este último perguntou a Averroes como os filósofos consideravam o céu: era uma substância eterna ou tinha um começo? Averróis ficou tão aterrorizado com aquela pergunta tão perigosa que não pôde falar. Yusuf colocou-o à vontade e Averroes começou a mostrar a extensão de sua aprendizagem. Se não houvesse um clima de medo, é improvável que Averróis tivesse se comportado dessa maneira.

Podemos também mencionar a constante perseguição dos ismaelitas. Abbas, o senhor da cidade de al-Rai, teria exterminado mais de 100 mil ismaelitas. Outra seita herética era o Khubmesihis, que ensinou que Jesus era superior a Maomé e parece ter sido centrado em Istambul no século XVII. A adesão a esta seita era susceptível de levar à prisão e execução. Dizia-se que a seita era inspirada pelo herege Kabid que tinha opiniões semelhantes e fora executado em 1527. Assim, tivemos o espetáculo da perseguição periódica de vários grupos (carijitas, xiitas, ismaelitas, etc.) considerados doutrinariamente suspeitos ou politicamente subversivos; indivíduos (filósofos, poetas, teólogos, cientistas, racionalistas, dualistas, livre pensadores e místicos) foram aprisionados, torturados, crucificados, mutilados e enforcados; seus escritos queimados (por exemplo, os escritos de Averroes, Ibn Hazm, al-Ghazali, alHaitham, e al-Kindi). Significativamente, nenhuma das obras heréticas de Ibn Rawandi, Ibn Warraq, Ibn al-Muqaffa e al-Razi sobreviveu. Outros indivíduos foram forçados a fugir de um tipo de governo para outro mais tolerante (por exemplo, al-Amidi). Alguns foram exilados ou banidos (Averroes). Os homens foram forçados a disfarçar suas opiniões verdadeiras por meio de linguagem difícil ou ambígua. Os que conseguiram se safar por ter blasfemado foram aqueles protegidos pelos poderosos e influentes.

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Ibn WarraqSobre o autor: Ibn Warraq é o pseudônimo de um ex-muçulmano nascido na Índia e criado no Paquistão e na Inglaterra. Famoso pelas suas críticas ao Alcorão e às sociedades islâmicas, Warraq também é fundador do Institute for the Secularisation of Islamic Society  que é um instituto que promove a secularização dessas sociedades.

 

 

 

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